sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Da pedra e da vidraça...

Um conto sobre uma velha máxima.


Paulo era dito “o” tal. Todas as garotas, em qualquer lugar que fosse, derretiam-se por ele. Sua boa figura, seu jeito galante e sua fala mansa, deixavam qualquer mulher alucinada e disposta á tudo para cair em suas graças.
Certo disso Paulo, que tinha fama de conquistador e homem de várias mulheres, se valia de todo seu charme na hora da conquista. Mandava flores, levava á bons restaurantes, boas casas de baile, abria portas e puxava cadeiras – um cavalheiro.

- É preciso agradar a “presa” antes de dar o bote – Dizia ele rindo-se com um ar malicioso.

Além destes predicados, Paulo era exímio amante. Sua vasta experiência em território feminino o concedera invejável knowhow de como levar uma mulher ao delírio na cama. E isso era motivo de orgulho e vantagem para o nosso jovem amigo. Gostava de gabar-se nas rodas de conversa, onde estava sempre acompanhado de beldades e cercado de companheiros dispostos a serem iniciados por ele na arte de ser, como ele mesmo o definira, Don Juan.
Paulo gostava de saber-se objeto de desejo do mulherio ensandecido. Mas não se prendia á ninguém.Perdera a conta de quantas vezes precisou de esquivar-se daquelas – quase todas – que se diziam perdidamente apaixonadas por sua pessoa. Sentia certo prazer em vê-las completamente neuróticas e loucas atrás dele. Entretanto, quando todo aquele circo passional parecia-lhe exagerado demais, Paulo simplesmente ignorava a tal moça e seguia sua vida. O que para ele era muito fácil, para as moças era praticamente a morte. Muitas tentaram dar cabo da própria vida e outras muitas, desencantadas, se enfurnavam em conventos e viagens intermináveis ao exterior ou a casa de parentes distantes. Certa vez, Paulo engraçou-se por Maria de Lourdes, moça distinta da cidade. Prometera mundos e fundos e a mocinha logo caiu em sua doce lábia. Paulo chegara a prometer-lhe casamento, e quando, finalmente, consegui o que queria, inventou uma desculpa :

– Minha mãezinha no interior está muito adoentada. Tenho de ir vê-la. – Aduziu com cara de dó e sofrimento.

Nunca mais voltou. Lourdes durante muito tempo nutriu esperança em rever seu amado. Com o tempo essa esperança deu lugar a tristeza de saber-se ludibriada e Lourdes acabou tornando-se freira, nunca mais retornou a sua cidade.
Paulo continuou suas andanças. Um amigo, que conhecia da história de Lourdes, certa vez encontrou-se com ele e lhe disse:

- É meu amigo, lembre-se sempre da pedra e da vidraça.

- Mas que diabos é isso homem? Nada posso fazer por aquela infeliz. Em mim ninguém põe cabresto! – E foi se engraçar para cima da filha de um rico fazendeiro da região.

O que Paulo não sabia era que Nilda era sua versão feminina. Muito bonita e faceira, Nilda tinha á seus pés todos os homens da cidade e das adjacências. Em seu encalço estavam desde simples agricultores até políticos de alto posto. Com cara de boa moça e jeito até um pouco brejeiro, ela encantava á todos os que a conheciam. Paulo é claro, investiria nesta nova conquista.

Considerava Nilda um troféu e este troféu seria seu. Fez as honras, mandou-lhe flores, foi até sua casa, conquistou as graças de seu pai. Construiu todo um cenário. Nilda no início resistiu – havia que fazer-lhe doce – mas cedeu tempo depois. Paulo e Ela travaram um romance, de fachada puro e delicado, por trás tórrido e excitante.
Em pouco tempo Paulo dizia-se apaixonado, Nilda a seu ver, retribuiria a esta paixão. E como ela somava todos os gostos de Paulo, ele por sua vez, decidiu abdicar de sua vida de Don Juan – Ela havia arrebatado-lhe o coração. Paulo então foi procurar por Nilda em sua casa, iria fazer o pedido como mandava o figurino, com toda pompa e circunstância que lhe era devido. Chegando em sua casa, chamou e foi atendido pelo pai da moça que da porta mesmo disse-lhe:

- Nilda se foi rapaz! Fugida com aquele filho do senador!

- Como disse? – Perguntou Paulo descrente.

- É, se foi! Passar bem. – Disse rispidamente o pai desolado despachando o ex- futuro genro mais desolado ainda.

Paulo saíra cambaleante. Atordoado pela notícia que havia recebido. Disposto a procurar sua amada onde quer que fosse. Não acreditava que ela fosse capaz de ter feito aquilo com ele.

- Nildaaaa! – Gritava ele por toda cidade.

Paulo procurou Nilda por todos os cantos. Gastou até o último vintém atrás de sua amada. E no fim, a sarjeta foi sua morada. Aquela figura nada lembrava o Paulo formoso e vistoso de outrora. E um dia, ele que bebia em um bar, descompassado e louco, encontrou com o velho amigo dos tempos áureos. E em conversa o amigo lhe pôs á par das novidades, Paulo em devaneios contou-lhe sua desdita, praguejando contra Nilda e todas as mulheres que haviam passado em sua vida e o amigo lhe disse em tom consolador:

- É meu amigo...Ser pedra é fácil. Difícil é ser vidraça...
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Postscriptum:


Caros Amigos,

Mais um conto, divirtam-se! Aproveito para deixar aqui meus agradecimentos por todos os emails, comentários e sugestões que vocês enviam. E também pra dizer que tudo anda as "mil maravilhas" e que logo, logo vou encher vocês de notícias e novidades!
Ah! Agradecimentos especiais ao Torres que sempre passa por aqui e sempre me manda dicas, sugestões...corrige possiveis falhas...Ele é um fofo mesmo! E ao Fred Bernis que me ensinou como colocar o contador de visitas aqui no blog...Vivendo e aprendendo! Obrigada!

Beijo Grande! Muita luz, amor e samba para todo mundo!

2 comentários:

Borboleta narcoléptica disse...

Ultimamente vivendo mais como vidraça esperando o dia de sentir o gosto de ser pedra.

Mais uma vez Fantástica!
Parabéns!

Cinara Lisboa disse...

Bem vindo (ou seria bem vinda?) ao time "VFC"!

Obrigada e volte sempre!