domingo, 9 de março de 2008

O que eu aprendi com a minha avó...



Para Nide Lisboa in memorian


Desde que eu me entendo por gente, a minha avó sempre foi avó. Daquelas bem típicas, rosto enrugado, cabelos brancos, andar lento, muitas histórias, sabedoria adquirida pelos muitos anos vividos. Minha avó era, fisicamente, nada parecida comigo, tinha a pele branca, olhos pequenos e verdes, rosto oval. Mas isso nunca foi problema para ela afinal, a nossa família foi feita da mistura de raças e, a mim, e algumas outras primas, ela chamava carinhosamente de ‘preta’. Vovó tinha verdadeira adoração por todos os netos, gostava de casa cheia, de visitas de domingo. Era puro orgulho, sempre que tinha oportunidade enchia a boca pra falar das qualidades de todos e adorava contar sobre as gracinhas dos bisnetos. Gostava de agradar e não perdia a oportunidade para um mimo. Não se esquecia de nenhum aniversário, sempre telefonava e procurava saber notícias de todos. Era, literalmente, ‘mãe-com-açúcar’!
Aprendi muitas coisas com a minha avó, principalmente a cantarolar enquanto executo alguma tarefa e pensar em voz alta, o que me rendeu fama de ‘maluca’ porque o pessoal ainda acha estranho eu falar sozinha. Aprendi que algumas coisas - e algumas pessoas - nunca vão mudar, mas que nem por isso você vai deixar de fazer a sua parte. Aprendi que paciência é, de fato, uma virtude. Aprendi que shampoo cinza deixa o cabelo branco lilás. Aprendi que as pessoas só ficam velhas se quiserem e que velhice pode até ser um estado que atinge o corpo, mas não deve nunca atingir a mente. Aprendi que café é algo que nunca falta na casa de mineiro. Que esmalte vermelho é o que há. Aprendi que conversa boa se acha na cozinha, acompanhada de biscoito de polvinho frito e de boas risadas.
Ela sempre foi uma mulher de fibra, mas ainda sim criada aos moldes antigos, falava baixo, não discutia, era um tanto quanto diplomática e extremamente sociável. Não havia uma pessoa sequer que não se encantasse por sua meiguice e magnetismo pessoal. Aprendi com esse jeito dela, quase brejeiro, que paz de espírito é muitas vezes o que mais precisamos para ter uma vida feliz. E que, mesmo com todas as adversidades, se essa paz for mantida, nada abala.
Gostava da força de vontade da minha avó, da sua vontade de viver, da sua alegria natural. Gostava quando ela ia nos visitar ou quando reunia todos os irmãos dela nas festas de família. Gostava do cheirinho de óleo de lavanda que ela passava nos cabelos e de pegar nas ‘pelanquinhas’ que ela tinha embaixo do pescoço. Gostava do constante - ‘hum, hum, hum’ - que ela fazia e da gelatina de morango que ela enchia de açúcar. Gostava das férias que passava em sua casa e do café na cama que ela sempre levava quando estávamos lá. Gostava do carinho que só vó sabe dar. Gostava dela, simples assim.
Vou sentir falta da minha avó, não por conta de tudo que citei acima, mas porque eu a admirava como pessoa, como mulher, como esposa, como mãe. Convivi com ela 25 anos, gostaria que tivessem sido mais, mas sei que todos eles foram bem aproveitados, pelo menos por mim. Vou sentir falta de ligar para a casa dela e ouvir o tão familiar -‘Oi preta!’ - e as inúmeras frases de despedidas que ela falava antes de desligar o telefone e que nos rendiam muitas risadas quando alguém imitava seus trejeitos. Ela era uma pessoa única e é disso que eu vou sentir falta.
Hoje vai ficar a saudade, não a tristeza. Porque eu sei que ela cumpriu a sua missão conosco e nós, cada um ao seu modo, aprendemos um pouco com ela. Sei que ela tem um lugar reservado dentre amigos queridos e que ela será sempre aparada pela providência divina. Sei disso, por que ela era iluminada.
Vovó se foi nesta última quinta-feira, mas ainda lembro da ultima benção que ela me deu ainda no hospital, antes que eu fosse viajar - ‘Vai com Deus preta, que Jesus te acompanhe. Cuidado e liga quando você chegar lá!’. Vou sentir falta da minha dona ‘N’, mas vou guardar, como forma de eternizá-la, todo amor que ela me deu e tudo o que eu aprendi com ela.

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Postscriptum:


Caros Amigos, obrigada á todos pelas mensagens de carinho e pelo apoio de vocês. Estes momentos por mais dolorosos que sejam, se tornam menos penosos quando compartilhados com aquelas pessoas que nos querem bem. Apesar de tudo estou cheia de novidades para contar então, logo em breve nos veremos por aqui de novo!

Abraços com carinho,


Ahhh, Feliz Dia das Mulheres para todas as Caras Amigas!
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Trilha Sonora - Música para minha avó:

Voa Bicho (Milton Nascimento e Mª Rita_Teles e Márcio Borges)



 Milton Nascimento - Voa bicho

14 comentários:

Dumuro disse...

See Here

Fabi Queiroz disse...

OI Cinara,
Adorei seu blog!!
Vou visitar sempre.
Bjs.

Ditaur disse...

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Booperfly disse...

minha querida, eu sinto muito mesmo.
Bjinhos,
Paulinha
http://www.booperfly.fairy-tales.com.br

Rico Soares disse...

Valeu menina! Seu blog é atitude!
Vc estuda comunicação?! legal.
é a minah formação =)
olha meu perfil no orkut:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=10483420652977998880
e veja meu álbum de "fotos" (que não são fotos rsrsrs).
;)

Georgia disse...

Linda homenagem a sua avó. Somente vindo de uma neta que aprendeu realmente a amar e a valorizar a avó que ela foi e é na sua vida.
Sei que vc estará guardando com muito carinho todos os momentos com ela.

Beijo no seu coracao

Câmera Digital disse...

Hello. This post is likeable, and your blog is very interesting, congratulations :-). I will add in my blogroll =). If possible gives a last there on my blog, it is about the Câmera Digital, I hope you enjoy. The address is http://camera-fotografica-digital.blogspot.com. A hug.

Mariam disse...

Oi Cinara, td bem? Me emocionei com seu post... fez lembrar minha vó tbm..
"Não havia uma pessoa sequer que não se encantasse por sua meiguice e magnetismo pessoal."
Pessoas assim ficam eternamente em nossos corações... Bjinhos t+

Rosaine disse...

Oi Ci, adoro muito todos os seus textos!Sempre leio e nunca comento né?!Demorei para vir aqui ler esse último,mas vim. E resolvi comentar especialmente nesse,pq não sei o que vc está sentido.Tenho duas avós vivas e sinceramente é como se não tivesse. Gostaria muito de ter tido uma avó assim como a sua.
As vezes não era exatamente isso que vc queria ler nesse momento.Mas foi isso que senti quando li.
Fiquei muito emocionada com todas suas palavras e o que eu tenho pra falar é pra vc se lembrar da sua avó sempre com esse carinho todo!!!
Beijos e continue escrevendo!
Adoro vc!

Salar disse...

See here or here

Carla disse...

Nossa... tenho que confessar que me emocionei muitoooooooo com esse seu post... Que declaração de amor mais linda pra sua vozinha...
Bjão.. e fique bem...

Andreia disse...

Minha Miga,
Essa homenagem foi realmente LINDA, carregada de sentimento, de pura simplicidade. A música então, caiu lindamente... estou emocionada... bjim

Minhas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cleu Sampaio disse...

Moça, que relação bacana com sua avó; parece que foi bem vivida, e no fim é isso que fica, né?

Beijo grande p/ ti.