sábado, 17 de maio de 2008

Minhas Piras...





Me deixa aqui com as minhas piras. Minhas exclamações, minhas caras e bocas. Meus ensaios em frente ao espelho. Minhas muitas interrogações, seguidas de reticências infinitas, redundando em versos mal escritos.
Sou um circulo imperfeito, feito a compasso. Eu me questiono porque no auge do meu pensamento viro apenas palavras, transcritas em folhas de papel pautadas de um lado só.
Eu quero ficar aqui, quero correr mundos, eu quero tudo e ao mesmo tempo não quero nada, não ouço nada, não vejo nada. Quero aquelas paredes azuis, o nariz arrebitado dele, o falar incessante de alguém pequenino, a platinela do pandeiro soando ao fundo, aquela estrela do lustre, um incensário em forma de flor, algumas caixinhas de origami.
Me deixa aqui com as minhas piras. Com as minhas frustrações, minhas soluções complexas e meu falar descompromissado. Meus milhões de folhas espalhadas pelo chão e os livros que leio todos ao mesmo tempo. Meus pés cheios de bolhas e os passos marcados de todas as danças unidas ao movimento circular e perfeito dos corpos alados.
Sou um andar irrequieto, aquela sapatilha furta-cor e aquele jeans antigo. Eu me visto de certezas e me afogo em dúvidas, porque talvez ainda me procure sem saber bem o que quero achar.
Eu quero aquela tarde de sol que não posso aproveitar, o amanhecer no topo de um prédio qualquer onde eu possa respirar o ar da montanha mais próxima. Quero dirigir sem rumo, ao léu, por aí. Quero aquele sorriso sincero, o cheiro de um perfume impregnado naquela regata branca, alguém que fale ‘hermana’ e as noites incansáveis em horizonte.
Me deixa aqui com as minhas piras. Com as minhas unhas pintadas de vermelho, com Chico cantando ao longe e o mover desinteressado dos meus pés sobre o edredom. Minhas prateleiras cheias de coisas, histórias e recordações denunciando a minha vida assim, tão movimentada, num paradoxo às paredes estáticas que as sustentam.
Eu sou um nada mais que isso ou aquilo, aquela máscara para cílios, blush terracota e sobrancelhas arqueadas. Eu estou sempre num diálogo animado com os meus botões que me contam coisas sobre um tempo feliz e do qual eu ainda quero, e sei que vou, fazer parte.
Eu quero aquelas tais borboletas no estômago, ouvir sininhos, suspiros inaudíveis, olhares perdidos e tudo o mais. Quero dividir meus dias sós, meus espaços, meus traços sem me preocupar. Quero correr horas á fio e ver um cachorro brincando em um gramado. Quero cantarolar aquela nossa canção, uma taça de rosê chileno, um violão com inúmeras cordas e alguém que passe a mão nos meus cabelos.
Me deixa aqui com as minhas piras. Com os meus sorrisos enquanto escrevo sobre coisas desconexas mas que fazem todo o sentido pra mim. Meus dedos batendo de leve sobre cada tecla, resultando um som hipnótico e cadenciado. Meu samba de uma nota só, de um pandeiro só, de uma cuíca só, de um sambista só.
Eu sou aquelas orquídeas que floresceram no cajueiro do quintal, aqueles óculos escuros que me lembram filmes antigos e as noites estreladas. Buscando num vôo alto viver com as minhas asas de borboleta, mas sabendo que meus pés vão e vem do chão seguindo o meu coração.
Eu quero apenas ficar aqui, com as minhas pirações, minhas peripécias, meus devaneios e meu olhar sob tudo ao meu redor. Quero acordar nas manhãs que anunciam o inverno, lembrar daquelas que vivi no verão e sentar como quem espera uma novidade, aguardando o momento crucial onde tudo isso se dará em uma fusão perfeita e resultará na soma de tudo o que se transformou em mim.


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Postscriptum:

"Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras." (Marcel Proust_À procura do tempo perdido)

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Trilha Sonora - A música que embalou este post:

Um trem para as estrelas (Cazuza_Cazuza e Gil)


 Cazuza - Um Trem Para as Estrelas





Tudo o que eu preciso é de um trem para as estrelas...



7 comentários:

Georgia disse...

Nao pire de vez nao, kakakakak.

Eu coloquei o seu link no meu google reader, foi isso. Estou fazendo um rodízio com os meus links. Uns entram no reader e ai ele me avisa qdo vc tem post novo, depois mudo volto tudo novamente. Quero estar em movimento, entende?
Mas imagina, ontem mesmo estive aqui e nao tinha post, vc só colocou mais tarde com certeza, com essa 5 horas de diferenca entre Brasil e Alemanha, rs.

Bom fim de semana

Beijao

muito de mim disse...

ensaios,ameaças e reticencias...tudo isso é uma otima forma de refletir se realmente algumas coisas na vida valme a pena...

ja te disse que adoro cazuza?!?
amo de paixao toda a obra...

tava meio sem tempo,nem o muito de mim tenho atualizado com tanta frequencia masi prometo voltar a ser uma visitante semrpe presente por aqui!
bjus

adorei o texto

Pequena disse...

eu adorei aquele seu abraço no social.
nunca vou esquecer.

um beijo com carinho.

Mariam disse...

"...onde eu possa respirar o ar da montanha..." Aahh! Que vontade! Agora 8:06 da manhã , leio seu post e olho pela janela a brisa entrando, um pequeno raio de sol passando entre a janela e a cortina! É viajando nisso... só o q posso ter em minha mente é o ar da montanha! :) Beijos t+

Carla disse...

Ultimamente, o que mais tenho são piras... mas não quero mais não, senão, vou enlouquecer...rs...
Bjus...

Booperfly disse...

Nossa, Ci, adorei o texto...tava inspirada, hein?
Cuidado pra não pirar...isso acontece com quem pensa muito...eu tb sou assim.
Uma boa semana pra ti!
Bjos,
Paulinha
http://booperfly.fairy-tales.com.br/

Mony disse...

Olá..

Ameii...

Definição simples e ao mesmo tempo completa...

Toques de sutileza sempre encontro por aqui..

Beijoss