quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A lista



Tenho uma amiga que tem mania de fazer listas. Listas de sonetos preferidos, filmes que ainda não viu, coisas que gosta, coisas que não gosta, sonhos, projetos, planos para o futuro e por aí vai. E foi por conta dessa mania dela que resolvi fazer uma lista que a princípio serviria para passar o tempo, mas decidi levar a sério e a lista passou a ser, digamos, meu manifesto para o novo ano que se inicia em breve. O nome dela?! ‘Coisas que não vão para 2010’. Porque entra ano e sai ano e insistimos em carregar junto da gente algumas coisas que deveriam ficar junto do ano que se passou. Coisas que tem prazo de validade, que têm dia e hora pra acabar: 31 de dezembro, meia-noite. Coisas que duraram o tempo exato que haviam de durar, mas que ainda sim a gente pede bis coloca na bolsa e vira mais um ano com elas a tiracolo.



Tá certo que há uma série de coisas que podem (e devem) passar para o outro ano, que merecem uma segunda chance. Mas sabemos exatamente quais são, assim como sabemos exatamente quais são as que gente deveria largar pra trás e seguir em frente. O problema é que nos apegamos a elas de tal maneira que a separação é dolorosa, sofrida. Então a gente precisa praticar o desapego, praticar o deixar ir e, antes de tudo, praticar o partir. Porque quem vai é a gente, o passo a frente é só nosso. Nada disso é fácil na prática. Na verdade é muito, muito difícil. Porque é preciso abrir mão e nem sempre estamos dispostos. É preciso querer e nem sempre queremos. Mas chega uma hora em que certas coisas viram peso morto, já não agregam mais nada, mas a gente as carrega porque nos habituamos a tê-las ali, pesando sobre nossas vidas, sobre nossos pensamentos, nossos sentimentos, pesando sobre nossas decisões e ações. O problema é que carregar todo esse peso desnecessário nas costas tem um preço e um resultado: acabamos por ter uma ‘lombalgia emocional’ e quando vamos ver estamos arrastando nossas vidas quando na verdade poderíamos andar com passos firmes e decididos.



É aquele emprego que você vem empurrando com a barriga, é aquele amor mal resolvido que nunca se resolve, é aquele curso que a gente nunca termina, é projeto que nunca sai do papel, é o medo de dirigir, é a vontade de ir embora, é aquela amizade que não vingou, são aqueles affairs que nunca deixaram de ser casuais, é a vontade de dizer ‘Tô apaixonada por você, e aí?!’, é arriscar o sim, é aceitar o não, é colocar as cartas na mesa, é afirmar o nosso espaço, é pegar a mochila e partir sem rumo, é uma leva de assuntos inacabados, é aquele sem número de gente que já ‘deu o que tinha que dar’, são os livros que a gente começa a ler e não termina, é essa indecisão que a gente não sabe de onde vem nem pra onde vai, são os ‘bastas definitivos’ que não duram um fim de semana, é esse orgulho besta que impede a gente de fazer certas coisas, é a gente mesmo que de quando em vez nem a gente entende.



Há momentos em que chegamos a ser masoquistas, carregando pesos infinitamente maiores que a gente mesmo sem necessidade alguma. A lista cada dia que passa fica maior e quando a gente vai ver, não estamos nem na metade. Ainda bem que uma bendita hora a gente cansa e aí a decisão já está tomada, que seja agora na virada do ano quando tudo se renova ou que seja qualquer dia em que você veja que não dá mais pra agüentar as coisas como estão daí é tirar a ‘lista das costas’ e dizer – Chega! De hoje em diante, não carrego mais excesso de bagagem.



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Postscriptum:

Hoje é dia Naciona do Samba! Salve, salve todos que fazem e todos que apreciam e mantêm viva essa cultura tão linda e rica!

"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é... É ruim da cabeça ou doente do pé... Eu nasci com o samba, no samba me criei e do danado do samba, eu nunca me separei!"

3 comentários:

Isa Lorena disse...

Massa. Adoro fazer listas também.
Vou providenciar uma assim, das coisas que não vão me acompanhar. Porque a gente vive fazenbdo listinha do que fica só né?
Boa ideia. bom blog.
bjs

Bahasi disse...

Olha que vamos acabar fazendo uma corrente do bem! Adorei o texto, Srta. Bailarina!

emquedalivre disse...

Achei genial. Mas eu teria que me deixar em 2009, se quisesse levar só coisas boas pra 2010 xD