sexta-feira, 2 de março de 2012

Desapego




“Então eu soltei a cordinha que te prendia ao meu dedo e te deixei voar... 
Enfim leve, levíssima, quase flutuando.”
[Karla Thayse]

"Garçom! Uma dose de amnésia e duas de desapego, por favor." 
[Caio Fernando Abreu]

Quando minha cachorra morreu, chorei dias a fio. Durante anos aquele serzinho de 4 patas, mudo das palavras foi minha companhia fiel e sincera, até quando depois de uma bronca por ter destruído um chinelo ou qualquer coisa assim, deitava ao meu lado no sofá e colocava a cabeça sobre meu colo, como quem diz: Me perdoe – E eu perdoava, mesmo sabendo que ela faria novamente. 

Descobri assim que apego é uma coisa complicada. Logo eu, que sempre preguei o desapego como estilo de vida me vi as voltas com seu oposto. Vivi nesses meus 28 anos inúmeras perdas, pessoas queridas que partiram, amores que passaram, amigos que foram do mesmo jeito que vieram, sofri cada uma dessas despedidas e por sua vez, cada um desses desapegos. 

A gente se apega às pessoas por afinidade, apego é criar raízes, é ter história, é fazer laços embora muitas vezes a gente faça nós, daqueles de marinheiro, difíceis e complexos de desfazer. E é aí que está o nosso grande erro, ao criar apego, sem perceber criamos dependência, geramos em nós uma falta do outro que até então não existia, tatuamos presenças, gravamos a ferro e fogo na memória permanente talvez para não deixar que a correria do tempo - que engole as lembranças - apague aquelas que nos são caras. 

Aqui na rua da minha casa tinha uma castanheira enorme na calçada do vizinho, com raízes imensas e que por fim começaram a quebrar o asfalto, destruir a calçada, atrapalhar o trânsito das pessoas, dos carros, enfim, me parece uma boa analogia, exatamente o que o apego pode fazer quando se torna maior que um simples gostar, querer bem, querer perto, mas deixar livre. Apego também destrói sonhos, quebra expectativas, atrapalha o transito de nossas vidas que deve sempre seguir em frente. 

Desapego, embora muita gente não concorde é uma forma de amar, mas com a consciência que não temos posse. Desapegar-se é ter a certeza de que o outro está porque quer e não porque queremos. Desapegar-se é aprender que as coisas vão e vem, vão e são como o tempo, como cantou Lulu Santos. Hoje eu tenho um novo cachorro, a árvore na calçada do vizinho virou ‘tamboretes’ e eu a cada dia que passa desfaço um ou outro nó que por ventura tenha feito pelo caminho, refazendo quando possível – e se necessário – em laços de fitas de cetim coloridas  que a qualquer momento, ou quando a vida ou o destino assim quiserem, podem se desfazer, sem dor, sem rancor, sem sofrer, ficando ao sabor do vento a certeza de que esta é a ordem das coisas e que tudo está como devia estar. Li em algum lugar, ‘Nó aperta, laço efeita’, e é bom por aí mesmo. 
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Postscriptum:

Caros amigos. Em pleno inferno astral um post para retomar os trabalhos. 

Doce abraço,

Bailarina

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Trilha Sonora:

Pra cobrir a solidão (Teresa Cristina e Semente_Teresa Cristina e Zé Renato)

Um comentário:

muito de mim disse...

O difícil mesmo é desapegar, decidir o desapego é fácil. perceber que o que era carinho virou prisão, quando se tem o minímo de sensatez a gente percebe. E pra desatar os nós. Ai vem a dificuldade. Bom sorte com o seu desapego flor!