domingo, 2 de setembro de 2012

Análise






“Uma vida não questionada não merece ser vivida.”
[Platão]

Parece que foi ontem que sentei na cadeira do consultório do meu analista e em cima de mim um belo par de olhos azuis depositou seu olhar indagador. Disse-me que eu poderia ficar à vontade, se quisesse poderia levantar, andar ou sentar no sofá. Escolhi como meu lugar um móvel que fica no canto direito da sala, arrasto os livros pro lado e sento lá em posição de índio. É assim todas as quintas.

Porque eu estava ali foi a primeira pergunta que ele me fez. Respondi: por que era muito difícil ser eu. Em réplica ele disse que eu estava ali porque era muito difícil NÃO ser eu. Todo mundo tem seus fantasmas particulares, comigo não seria diferente. 

Não é fácil chegar aos 30 anos solteira. Muito menos aos 30, solteira, sem o emprego dos sonhos, morando com os pais e com pavor de dirigir. A sociedade cobra. E cobra como um agiota. E pra mim, que sempre foi ovelha negra, os juros são exorbitantes. Foram 10 noites ininterruptas sem dormir, um relacionamento que tinha tudo (ou eu achava que tinha) pra dar certo indo Buenos Aires abaixo, uma mudança de chefia no emprego que me colocou em meio ao covil, eu nos meus 1,60 e 48 kg era presa fácil. Além disso, meus pais doentes e enquanto isso uma obra pra ocupar a cabeça dos meus irmãos. Não era justo preocupar outras pessoas com os meus problemas. Bem vinda ao inferno, era a frase que eu esperava ouvir quando caia da cama de manhã.

Nesse meio tempo eu questionei a mim mesma. E só podia questionar a mim, porque era a única responsável pelas merdas que andavam me acontecendo. Questionei minhas péssimas escolhas, minhas atitudes impensadas e as palavras que eu cuspi boca à fora. Foi assim que eu fui parar naquele consultório. Era análise ou hospício. Eu escolhi num momento de lucidez em meio ao caos entrar lá, era o meu bote salva-vidas. Mesmo sabendo que eu teria que remar se quisesse sair do lugar e ser definitivamente salva. 

Hoje, um ano depois, paguei a caixa de lenços de papel que devia ao meu analista. Aquela que gastei inteira na minha primeira sessão. Ainda sento no mesmo lugar do primeiro dia e ainda acho muito difícil ser eu, mas sei que terei que conviver comigo e que não tenho como escapar de mim mesma. Tenho me assustado menos com os meus fantasmas e vez por outra entro na brincadeira e vou assombrar alguns outros por aí.  Continuo não querendo pagar a conta que a sociedade cobra. Escolhi a pílula vermelha, não faço parte da Matrix. Meu Morpheus atende pelo nome de quem enfrenta os leões e é com ele que eu tenho aprendido a lutar contra os meus todos os dias. 

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Trilha Sonora:

"Deixa pra fulano reparar os danos, mas embebida nos enganos no meio dos meios termos a desiludida vida tem valor supremo, quem viver verá quem beber esquecerá que mesmo um copo vazio ainda está cheio de ar (...)"

Piano (Thais Gulin)
Piano by Thais Gulin on Grooveshark


(*) Obrigada, minha querida 'Lua', que me apresentou essa pérola durante nossas férias em Jeri!

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