domingo, 2 de fevereiro de 2014

Conta e risco





"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem barômetros, etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."

(Manoel de Barros)

Foi-se o tempo em que  eu achava que precisava de outra pessoa para ser feliz. Depois de muitos tombos e decepções aprendi que pra ser feliz basta eu mesma. Sem egoísmo algum nessa frase, a verdade é que, transferir para o outro a responsabilidade de nos fazer felizes é atestar a nossa própria incapacidade e, de quebra, garantir uma decepção sem precedentes.

Conheço gente que é feliz tendo alguém, conheço outras que são completamente infelizes. Conheço também que não tem ninguém e é feliz e outros muitos que são infelizes solitários, mas cada um, acredito eu, sabe lá no íntimo que o fato de ter alguém ou não, não é o que determina a felicidade. O problema é que tem gente que faz questão de deixar essa certeza pra lá e, num ato de preguiça e de covardia - preguiça sim, porque dá uma trabalheira danada ser feliz – coloca o pesado fardo nas costas do outro e corre contente e saltitante por aí, certo de que o outro não só tem o dever, mas a obrigação de garantir sua felicidade.

É aí que dá merda. É aí que a gente vê que a felicidade é algo para ser compartilhado, mas é uma realização da esfera individual. Quem está feliz não enche o saco, muito menos transfere para o outro a responsabilidade da felicidade alheia. Quem está feliz aceita qualquer condição porque sabe que é possível ser feliz sozinho.  Quem está feliz não faz ‘nós’, faz ‘laços’.

Não é tão simples ser feliz por si só. Fomos criados para depender do outro para sermos felizes, quebrar padrões e culturas é muito mais difícil do que a gente imagina. Até mesmo porque, muitas vezes assumimos o fardo certos de que aquela é a nossa obrigação e, resignados, carregamos o peso anos a fio. E, quando damos por si e percebemos que foi impossível fazer o outro feliz, nos frustramos com a nossa incompetência. Como se a nossa capacidade de amar fosse medida por esse indicador. Esquecemos nos, muitas vezes, de nós mesmos. Se eu não consigo ser feliz, como vou conceder felicidade à outrem?!

Ser feliz dá trabalho, mas vale à pena. Gasta tempo, exige auto-conhecimento e o mais importante, requer uma dose cavalar de amor próprio. Estar feliz consigo mesmo é uma das maiores dádivas que o ser humano pode alcançar, é poder contribuir com o outro nessa busca da dele próprio. Quem está feliz consigo mesmo ajuda, compreende, auxilia, transforma, mas o dever de ser feliz, esse é por nossa própria conta e risco.

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