quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Luto


Para L.A.B.N


“Deixe as más histórias falecerem e escreva na lápide: aqui jaz a personificação da má escolha.” 

“E me despeço com afeto, porque o ido já não está contido. Hoje eu enterro o que morreu para celebrar o que está vivo. Eu sou alguém que me tem.”
(Marla de Queiroz)

Então eu entrei na igreja e coloquei seu nome na intenção de missas de 7º dia. Eu vestia preto, cor que se pede ao luto. Não era proposital, embora nem fosse necessário desde aquela fatídica terça-feira, onde tudo andava negro pra mim. Não tive tempo para velório. Juntei o espólio - a herança que eu não queria herdar - doei tudo que era meu. O que era seu eu despachei pra sua casa num pacote pardo, sem remetente ou destinatário. Você morreu naquele dia. Era quarta feira, fim de inverno, fazia frio, mas não chovia. Pareceu-me um bom dia para alguém morrer. 

Não foi morte propriamente dita, você morreu porque passou a não existir pra mim. E toda morte dói. Embarga a voz, dá um nó na garganta. Aí a gente chora. Chora porque é preciso chorar. Choro é catarse e tem certa beleza, parece chuva quando cai e escorre pelo vidro da janela. Eu choraria por horas, mas você não merecia tantas lágrimas assim. Quando eu percebi, o Padre já havia falado seu nome, a senhora que estava ao meu lado parece ter percebido que era eu quem pediu em sua intenção e seus olhos me disseram: ‘Deus a conforte’. 

Existe uma tristeza sutil e genuína na morte. Mas com o tempo tudo se abranda, a dor e a tristeza tornam-se suportáveis. A falta já não é mais sentida, já não é mais saudade. E facilmente se vê substituída por uma cerveja com os amigos, por uma longa e solitária caminhada do trabalho até o centro, observando as pessoas e as coisas. Deve ser desse conforto que a senhora na igreja disse-me no seu olhar. E aí a gente percebe que já pode tirar o luto e sobreviver. E a verdade é essa, qualquer que seja a dor, a gente sobrevive.

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 Trilha Sonora:

"Vou seguindo pela vida, me esquecendo de você. Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver. Vou querer amar de novo e se não der, não vou sofrer. Já não sonho, hoje faço do meu braço o meu viver."

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