domingo, 5 de agosto de 2007

Santa Paciência...

Um conto sobre a incrível e virtuosa arte da espera.



“Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar.” (Franz Kafka)


Esperantina detestava esperar. Detestava qualquer idéia que remetesse à espera. Era, por natureza, impaciente. Qualquer coisa que levasse mais que o tempo de um piscar de olhos era, para Esperantina, uma eternidade.
Certo dia, enquanto aguardava o bonde que lhe levaria até o trabalho, Esperantina observou com ares de quem critica, que havia um senhor sentado placidamente num banco da praça que se abria ao ponto final.
– Que absurdo! Como pode alguém ficar parado observando o tempo quando há tanto a se fazer? – Esperantina não conseguia conceber que existia gente que vivia a vida sem pressa. Abismada com a visão, ela foi até o velho homem, que tinha aparência distendida apesar de cansada e falou veemente:
– Ô velho, o que fica fazendo aí parado? Não vê que o mundo tem pressa?
O velho nada respondeu, apenas sorriu e continuou a observar os passantes. Ela, lembrou-se da sua pressa e do bonde – Quanta demora! – correu e ainda ralhou com o condutor para que ele arrancasse depressa – Tenho hora!
E Esperantina correu. Correu o dia todo. Não teve paciência para esperar o elevador – aquela geringonça moderna – Muito menos aguardou vagar uma mesa na confeitaria. Ela não esperou também aquele portador que lhe traria notícias de sua família que há muito não via.
– Não tenho tempo! E a viagem é demasiado longa e demorada! – Para ela, tudo era para ontem. Era-lhe simplesmente, penoso, esperar.
E ao fim do dia, não sem antes discutir com o porteiro que andava devagar para abrir a porta e também com um guri que entrou em sua frente correndo atrás de uma bola, Esperantina foi para casa. Chegando lá avistou novamente o velho sentado na praça, olhar observador. Ela pode jurar que ele estava na mesma posição em que o vira pela manhã e caminhou decidida a dizer-lhe umas verdades.
– Que falta de paciência com essa gente à toa! – Pensou, descrente com a cena.
Porém, antes que Esperantina pudesse dizer alguma coisa o velho a fitou longamente – o que aumentou a sua indignação – sabia que ele iria dirigir-lhe a palavra – Porque não desembucha de uma vez! E a voz do velho interrompeu o silêncio, que seria sepulcral, não fosse o bater impaciente do pé de Esperantina. E ele disse apenas – Paciência é uma virtude, minha filha – Nesse momento, Esperantina quase teve um acesso. Bufou ensandecida e saiu desvairadamente quase derrubando o velho que segurava a sua mão.
Noutro dia, Esperantina levantou-se, correndo, como de costume. Lembrou-se do incidente com o velho, que lhe tomara preciosos minutos e praguejou contra as pessoas que, segundo ela, ficavam á vagabundear por aí. E já saia correndo, impaciente com a vizinha com uma criança no colo que descia a escada na sua frente. Rezando para que o condutor de hoje não fosse o mesmo “molenga” de ontem. Foi quando um portador topou com ela no portal e, se ele não dissesse, quase que imediatamente que a encomenda era para ela provavelmente ele seria o primeiro alvo da sua impaciência naquele dia – afinal, ele atrasaria seu processo.
Despois de dispensá-lo rispidamente, abriu o pacote e pode observar apenas uma pequena bolsa de tecido ao fundo. Retirou a bolsa e, para sua surpresa, eram sementes – Ipê – dizia uma inscrição em letras tipográficas. Junto ás sementes um cartão, escrito com letra fina e rebuscada, onde se lia:

Minha cara,

“Quem pretende alcançar, espera, e cala/Porque quem temerário se abalança/Muitas vezes o amor o desiguala/Pois se aquele, que espera se alcança/Quero ter por melhor morrer sem fala/ Que falando, perder toda esperança.” (Segunda Impaciência do Poeta - Gregório de Matos)

Que esperes, sem pressa e com calma paciência, cresceres tua árvore. Que ela represente tua busca e teu crescimento e que os louros sejam assim, manso regaço e glória a serem contemplados.

"A paciência é amarga, mas seus frutos são doces" (Jean-Jacques Rousseau)

Terminara assim, sem aviso ou assinatura que identificasse seu remetente. Mas não era preciso ser dito mais nada. Daquele dia em diante, Esperantina esperaria, pacientemente, as flores de julho brotarem em seu Ipê.

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Caros Amigos,

Mais um conto. Não tão passional quanto o primeiro, mas com cunho inspirador. Fiquem á vontade para críticas, elogios e comentários.

Abraços sempre Saudosos,

7 comentários:

Luiza Lisboa disse...

Muuuuito bom!
Perfeito minha parente lindona, que orgulho! hahaha...
Caiu como uma luva!
Estou no lugar do velho, graças a Deus!
Bjos!

Frederico Bernis disse...

Ei, Bailarina.
Quer dizer, ex-bailarina, agora jardineira.
Tem gente que sabe cuidar do jardim, tem gente que não. Tem gente que vê a flor e não percebe a graça. Tem gente que olha e não vê. E tem gente que simplesmente tem medo.
Beijo pra você e pras suas primaveras.

Andreia disse...

Migaaaaaa!!!
Momento de reflexão né! De fato a impaciência é um dos grandes males de nossas vidas corridas, cheias de coisas e ao mesmo tempo vazia...
As vezes esperar é cruel, mas é sábio, traz uma certa... paz.
Ah miga, como tenho te conhecido a cada dia que passa...
Parabéns por mais um "contito" carregado de suas emoções, reflexões e aprendizados... Bjim

Victor Hugo disse...

Em pensar que eu tenho que concorrer com tanta gente...
Hoje eu não posso, é aniversário do Wallace...vou na colação da minha cunhada...tenho reunião no centro...é aniversário da Andréia...
E eu? Estou aqui, convalescente, e sem nem uma migalha de sua atenção Bailarina...Mas tudo bem, vou ser paciente (muito inspirador seu novo conto) uma hora eu sei, quer dizer, espero, chega a minha vez...vale a espera...em alusão á Rousseau...a recompensa é doce.

Igor disse...

ui ui!!!! Li outro conto!!! Bom demais, amiga. Daqui a pouco já vai dar um livro! Quero o meu autrografado. Muito bom!!! Escreva mais. Bjo

Cinara Lisboa disse...

Lindos, obrigada pelas visitas e comentários!
Sejamos pacientes, antes de tudo, conosco e com as nossas próprias dificuldades. Fico feliz que tenham gostado e aguardem, logo, logo, postarei mais um conto por aqui!

Luh Lindona e Fred...agradecimento á vocês nos respectivos blogs! Mas sintam-se abraçados com muuuuuuito carinho!
Miga (a melhor), Vit (Qto drama hein!), Torres (Luv 2 my life)...AMO, AMO, AMO! Vcs nem imaginam o quanto!

Visitem-nos sempre!

Abraços,

Ju disse...

Ci!!!
Q lindo!!! Serás uma escritora??? Deus queira q sim!!
Será q quem espera sempre alcança???
Prefiro crer q sim!!!


Saudade enorme de vc!!! Dos nossos debates sobre o comportamento...
Bjos