terça-feira, 2 de novembro de 2010

O vestido



"E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar."
(Clarice Lispector)




Outro dia fui experimentar um vestido numa loja – 34, por favor! – Visto manequim 34 desde os 15 anos. Sou magra, mas confesso que só há uns 5 anos eu convivo bem com essa minha verdade. Não vou dizer que é algo que não me agrade, mas não vou dizer também que ser magra não me incomoda (e deve ter gente nesse momento, amaldiçoando até a minha nona geração por tal declaração). Incomoda sim, brasileira é tudo ‘ão’: bundão, pernão, peitão, coxão. Não estar dentro dessa estatística foi algo que me deixou com a pulga atrás da orelha durante praticamente toda a minha adolescência.

Voltando a loja, eis que o 34 não serviu, na verdade ele nem entrou. - Então tá, trás o 36 que deve dar! - Na verdade sei que nunca, nunca mesmo, vou fazer o tipo mulherão (o ‘ão’ aí é sinônimo de muito). Não sou (e nem sei ser) mulher de parar o trânsito, de fazer pescoços terem torcicolo por conta de seu derriê. Nem sou, no auge dos meus um-metro-e-cinquenta-e-oito,‘ão’ na altura.

E se já diria Rita Lee, ‘nem toda brasileira é bunda’, cá pra nós, pra que é que vou me preocupar?! Sou mignon, aceitei essa condição na minha vida e vivo muito mais feliz por conta disso. Mas se você, longe de ser mignon, tá mais pra peça de picanha, que seja minha amiga, tem pra todo mundo. Sou contra a ditadura da magreza, imposta pela indústria da moda, e sou contra também a 'política hortifruti' com suas mulheres-melancia, melão, morango, salada de fruta... Nós mulheres, somos sim, um grande abacaxi que nem nós mesmas damos conta de descascar de vez em quando. Não acho a magreza anoréxica e blasé das ‘uber-power-maxi-ultra-mega-giga-top-models’ algo a ser exaltado, muito menos acho que sacudir a bunda ‘descomunalmente’ grande na TV - por completa ausência de massa cinzenta pensante - algo bonito de se ver. Se os homens vêem algum prazer ou tesão nisso tudo – Paciência. A gente bem sabe que (e me perdoem as mais recatadas) a 'cabeça de baixo' muitas vezes é quem comanda nossos tão necessários espécimes masculinos.

E por falar em paciência, foi exatamente a tal virtude que eu não tive ao constatar que o 36 também não servia – Pasmem! – Pedir o 38 (ou o 40, 42, 44...) é demais pra algumas mulheres, dois números a mais no manequim é a morte pra muita gente. Já vi quem vestisse 40 comprando um jeans 38 mesmo sabendo que ficaria impraticável sentar usando a ‘bendita’ calça. Já vi também quem tomasse Profol, Apetivit e Biotônico Fontoura, tudo junto, e dormindo na mesa do escritório porque esses remédios pra engordar funcionam também como ótimos soníferos.

Verdade seja dita, difícil é ver quem esteja plenamente feliz com o seu peso e com seu corpo. Eu mesma confesso ter ficado (muito) feliz por ter pulado - num passe de mágica – duas medidas. E quando eu já começo a comemorar meus novos, sei lá, 4 quilos eis que a solícita vendedora me vem com o balde de água fria – Ah! Já sei o que tá acontecendo, é que esses vestidos vieram de fábrica com a confecção pequena – Pausa para o bico enorme desta que aqui vos escreve – Estraga prazeres! – Mas mesmo assim, fui embora da loja sem o vestido e antes que ela trouxesse o 40. Deixa estar Bailarina, tá bom assim do jeito que tá!
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Trilha sonora (clichê!):
 
Pagu (Maria Rita_Rita Lee)
 

3 comentários:

Michelle disse...

Caraca!! Acabo de chagar do shopping, estava precisando comprar uma calça, e acredita que tive que comprar a 36?!? A 34 praticamente prendeu minha respiração. Nossa nunca pesei 50kg e estou a 600 gramas disso ... Confesso que estou com medo. Mas ainda assim, acho que saimos à família do "papai".
Bjus e esse mais uma vez foi como uma carapuça em minha cabecinha. kkk

Rafa disse...

Bom já que eu sou a atual amiga com muitos ãos confesso que só agora me acostumei com a idéia de sempre pedir 46 ou tudo GG rsrs e tenho adorado me sentindo cada dia mais bonito as vendedoras querem me dar M mas faço questão de afirmar e com muito orgulho que quero a maior numeração Bjos bailarina

Bailarina disse...

Pois é meninas, 'ão' ou 'inho' no fim das contas sempre acho que tá bom é do jeito que tá mesmo!

Agora, Mih...Saímos mesmo à familia 'Miranda'! Tia Lena e Tia Tê que o digam...kkkk!

#Saudades, 'amoras'!