sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pro teu bico





"Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida(...)Nós na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva(...)Ser seu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida e algum veneno anti-monotonia(...)"  [Cazuza]


Eu disse que queria um amor bonitinho. Assim, com todas as letras, soletrando o ‘bonitinho’ para dar ênfase e importância devida ao fato. Na cadeira da frente a cara da terapeuta era de: ‘Pronto, descobriu o Brasil’ - Mas acho que pra mim era bem isso mesmo, descobrir que eu queria uma amor bonitinho, daqueles de propaganda de margarina, era como descobrir o Brasil, com direito à Caravelas e carta do Caminha pra contar a boa nova.

Passei os últimos anos rejeitando toda e qualquer hipótese que remetesse a esse tal amor bonitinho. Passei anos fazendo a ‘descolada’, bancando a ‘heartbreaker’, renegando ao amor o papel de vilão do meu filme que nunca tinha final feliz.  Passei anos me escondendo sob o disfarce da mulher independente de tudo e de todos, inclusive do ato de amar alguém que merecesse tal sentimento.

Nesse meio tempo fui arrebatada por paixões intensas, me consumi em relações que não tinham nem quê nem pra quê, tive PA, FGTS e o que mais inventaram no dia em que queimaram os malditos sutiãs em praça pública. Dei-me o direito de estar louca pra pegar o telefone e ligar, mas no lugar comer um chocolate e desligar o telefone. Gritei aos quatro-ventos e aos quatro-cantos que era péssima namorada, com meus milhões de ‘porém’ listados em ordem de importância e gravidade como um aviso em neon pra quem ousasse encarar o meu ‘radicalismo amoroso’. E sem perceber perdi oportunidades, deixei passar muita gente bacana e parafraseando Cazuza, muita ‘sorte’ e muitos ‘amores tranqüilos’. Pensando que estava me preservando de sofrer, sofri ainda mais por viver na crença de que esse amor não existia. 

Hoje enquanto matava tempo, sentada num dos bancos da Praça da Liberdade, vi um casal caminhando de mãos dadas, tocava ‘É tarde’ do Skank no MP3. Os acompanhei até onde na curva eles desapareciam em meio aos arbustos, pessoas e coisas. Ainda sob o reflexo da terapia, pensei: era disso que eu estava falando. Mas acho que era tarde, tarde demais pra mim. Meu amor bonitinho por certo já se perdeu como casal na curva, foi tragado pela cidade e pelo tempo que não perdoa as nossas falhas. Então, veio à cabeça os versos de Caio Fernando Abreu, ‘Repito sempre: sossega, sossega – o amor não é pro teu bico’. É uma pena, mas talvez não seja mesmo.

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Trilha Sonora:
'É tarde' (Skank_Samuel Rosa e Chico Amaral)




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