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Volver

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‘Voltar quase sempre é partir para um outro lugar’ (Paulinho da Viola) "Atenção senhores passageiros com destino à Belo Horizonte, embarque no portão 10" . E lá estava eu, feliz da vida, voltando pra casa. Tenho o espírito livre, uma alma inquieta, ficar no mesmo lugar sempre foi uma tortura pra mim. Mas como todo ser de ‘sangue quente’, sinto falta da minha casa, da minha cidade, da minha vida, das pessoas, do clima, do ritmo, do espaço urbano - e um querido amigo diria: ‘ que bonito isso’ - como quem sente falta de ar. E voltar é como um balão de oxigênio quando o ar se torna rarefeito e as paredes do quarto do hotel começam a me comprimir. Por inúmeros motivos quis sair de BH por um tempo, descansar a imagem, já diria outra amiga. Foi tudo de última hora, 45 dias fora me pareciam 45 horas, falando assim, rapidamente. A proposta de trabalho veio a calhar, como um bote salva-vidas, pronto a me resgatar do meu naufrágio pessoal. Não hesitei em me segurar e ser levada, 2061...

Pra salvar a minha vida

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"Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria" (Clarice Lispector) Sempre escrevi. E sempre deixei claro que escrevo por necessidade, não por vocação ou talento. Escrevo pra estravassar meus 'ais', pra exorcizar meus demônios, pra entender minhas pirações, dar asas ao espírito livre, sossegar a alma inquieta. Escrevo por mim, pra mim. Quando resolvi pegar tudo o que eu escrevia e publicar não esperava leitores ávidos, muito menos compreensão. Aliás, não esperava nada. Queria apenas 'escrever meu livro', já que o ter um filho eu abro mão e pra plantar uma árvore ando 'sem tempo'. Escrever muitas vezes é meu bote salva-vidas. É meu porto seguro. Minha ponte, minha cama elástica no fim do poço, escrever muitas vezes é o remédio, parafraseando Mart'nália, que me tira do tédio. Escrever é meu sopro de boa nova, é minha oportunidade de recomeçar, todas as vezes que começo a primeira frase. ---------------------...

Eu sou assim

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"Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar."  (Caio Fernando Abreu) Não sei representar papéis. Acho que nasci pra viver sozinha. Não gosto de cozinhar. Gosto de crianças quando elas estão dormindo. Não tenho vocação pra Madre Tereza. Sou chata, tenho manias estranhas e gosto mais de cachorro do que de gente. Costumo ser radical com gosto musical. Tenho preguiça de gente prolixa. Na fila de distribuição de paciência eu não tive paciência pra esperar pela minha vez. Odeio que mexam nas minhas coisas, tenho horror à desorganização. Não ligaria de trabalhar num ‘aquário’ com um computador, uma mesa e uma cadeira, desde que pudesse ouvir minhas músicas sem fone de ouvido. Não nutro a esperança de casar, para isso precisaria de muito amor do outro pra aceitar aquilo que não consigo mudar em mim ...

Curvas

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“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” (Drummond) Outro dia no metrô lendo a antologia poética de Drummond me deparei com o Poema de Sete Faces, fiquei relendo o verso ‘ Vai, Carlos! Ser gauche na vida’ por quase toda a viagem. Relendo talvez porque o verso faça todo sentido pra mim, relendo talvez porque mais cedo ou mais tarde, a gente querendo ou não, somos gauche, esquerdos, tortos como diz a definição do verbete. Minha vida sempre foi meio gauche, sempre preferi o que não era modismo, nunca fui a popular no colégio, nunca tive a pretensão de ser a ‘Rainha do Baile’, me contentava em ser antagonista da história. Mas a bem da verdade, existe certa vantagem em estar do outro lado, meio deslocado de tudo, fora do foco, outside . É bom ver como a engrenagem funciona, é bom reparar de outro ponto de vista, é interessante analisar sob outra ótica, mesmo um pouco distorcida. Ver tudo de outra forma, reparar as sete, oito, nove, i...

Óculos

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  "O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." (Guimarães Rosa) Em 2010 aconteceu de tudo na minha vida. Aposto que na sua, caro leitor, também. Enfim, aconteceu de tudo no mundo, na minha vida, na sua vida, na vida do vizinho, na do presidente, na daquela pessoa que mora em Pontaporã e na daquela que mora numa ilha afastada em pleno Pacífico. Graças a Deus e já diria Cazuza, o tempo não pára, e a vida, por sua vez também não. Tá certo que 2010 não foi o melhor ano da minha vida e que os acontecimentos do ano que passou não foram, no saldo, os melhores. Mas eu mudei de emprego, me libertei - embora não sem dor - de uma paixão que me fazia mal, conheci novas pessoas, fiz novos amigos, voltei a fazer terapia, descobri alguns lugares bacanas, viajei, reforcei laços, aprendi a lidar com algumas derrotas com certa classe e leveza, deixei de me preocupar com alguns...

Conversa de Botequim

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- Quanto você me ama?! - Hum, não sei, deixa eu pensar... Gesto com o polegar e o indicador. - Um tanto assim, ó! - Só isso?! - Você acha pouco?! - Acho - Seguido de uma franzida no cenho. - Vamos fazer assim então, põe mais cerveja no meu copo – Sinal pro garçom – Ô amigão! 'Cê tem aí um pedaço de fita?! O garçom solicito entrega um pedaço maltrapilho de barbante. - Vamos fazer um ‘vira-vira’ e o quanto agüentarmos marcamos com a fita, essa é a quantidade que eu te amo e você me ama, pode ser?! - Não vale, você é mais forte pra bebida do que eu! - Que nada! Quem bebeu mais até agora, hein?! – Pode ser?! - Tá, pode! - Vamô lá então, no 3! 1,2...3! Amigos se juntam em coro - Vira, vira, vira... Vira, vira, vira... - Vira, vira, vira, viroooooooooooooouuuuuuuuuuu Foi assim, nessa conversa de botequim, amor mensurável, como a medida de um copo lagoinha. ---------------------------------------------------------------------------------------------   P...

O vestido

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"E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar." (Clarice Lispector) Outro dia fui experimentar um vestido numa loja – 34, por favor! – Visto manequim 34 desde os 15 anos. Sou magra, mas confesso que só há uns 5 anos eu convivo bem com essa minha verdade. Não vou dizer que é algo que não me agrade, mas não vou dizer também que ser magra não me incomoda (e deve ter gente nesse momento, amaldiçoando até a minha nona geração por tal declaração). Incomoda sim, brasileira é tudo ‘ão’: bundão, pernão, peitão, coxão. Não estar dentro dessa estatística foi algo que me deixou com a pulga atrás da orelha durante praticamente toda a minha adolescência. Voltando a loja, eis que o 34 não serviu, na verdade ele nem entrou. - Então tá, trás o 36 que deve dar ! - Na verdade sei que nunca, nunca mesmo, vou fazer o tipo mulherão (o ‘ão’ aí é sinônimo de muito). Não sou (e nem sei ser) mulher de parar o trânsito, de fazer pescoços terem torcicolo por con...