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Caio, fila e ser feliz

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(ou: Tá faltando inspiração até para o título) A primeira vez que ouvir falar em Caio Fernando Abreu foi no inverno de 2008, quando tudo andava meio estranho e sem perspectiva eis que se deu a leitura de Morangos Mofados.  Depois disso passei a seguir alguns perfis no twitter com pequenas pérolas do escritor. E apesar de ser uma 'literatura enlatada,  costumo brincar que Caio conversa comigo através desses tweets . Se Clarice Lispector me encanta pela sua melancolia, Caio me arrebata por seu realismo dramático e se não é Adélia Prado para soprar dias felizes, qualquer objeto cortante perto de mim poderia fazer grande estrago. (Como já diria o Carlito: #FicaVaiTerDrama.) E numa dessas ‘conversas’ diárias li o seguinte trecho: ‘Vâmo acordar, vâmo acordar! Tem muita gente furando fila e sendo feliz no nosso lugar’ . E isso bastou para que eu parasse o que estava fazendo e pensasse: é isso mesmo! Enquanto a gente dorme no ponto no emprego que te desgasta, num curso que você...

Preciso escrever

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“A inspiração vem de onde, pergunta pra mim alguém, respondo talvez de longe... De avião, barco ou ponte, vem com meu bem de Belém, vem com você nesse trem... Nas entrelinhas de um livro, da morte de um ser vivo, das veias de um coração...Vem de um gesto preciso, vem de um amor, vem do riso, vem por alguma razão...Vem pelo sim, pelo não(...)” Pois é, o título é fato. Estou com dificuldades em escrever. Parece que a minha inspiração era condicionada ao sofrimento. Não sofro, logo, não escrevo. O problema é: posso não sofrer por aquela paixão de quatro anos (Isso tudo, por Deus!) que só fez estrago, deixou um puta de um buraco e a custo conseguir me refazer. Mas eu sofro agora porque tenho um ‘medo medonho’ (com toda licença poética para a redundância) do novo e como bem sabemos, o novo assusta a gente feito o diabo.  Eu preciso escrever então sobre isso, preciso escrever sobre as coisas novas, sobre tudo o que tem acontecido. Preciso escrever até mesmo sobre o que por certo nem a...

Estetoscópio

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Num domingo desses, o namorado da minha irmã (que é fisioterapeuta) trouxe um estetoscópio aqui pra casa. Confesso que sempre gostei desse aparelhinho médico, sempre achei interessante essa idéia de ouvir o que acontece dentro da gente.  E foi brincando com o estetoscópio junto com a pequena que parei pra pensar que quase nunca damos ouvidos pra gente mesmo. Responda você, caro leitor, quando foi a última vez que você se ‘deu ouvidos’? Quando foi a última vez que você parou para ouvir a sua própria voz, seus próprios sentimentos, suas próprias opiniões, sem que nada interferisse? Quando foi a última vez que você ouviu sua razão, ou melhor, quando foi a última vez que você ouviu seu coração?  Uma grande amiga sempre diz que usa a razão porque o coração mesmo, só serve pra bombear sangue e nada mais. Mas a verdade é que meu coração já deu palpite demais na minha vida, então faz muito tempo que resolvi deixar, na discussão interna, a razão falar mais alto. No entanto, não nos...

Volver

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‘Voltar quase sempre é partir para um outro lugar’ (Paulinho da Viola) "Atenção senhores passageiros com destino à Belo Horizonte, embarque no portão 10" . E lá estava eu, feliz da vida, voltando pra casa. Tenho o espírito livre, uma alma inquieta, ficar no mesmo lugar sempre foi uma tortura pra mim. Mas como todo ser de ‘sangue quente’, sinto falta da minha casa, da minha cidade, da minha vida, das pessoas, do clima, do ritmo, do espaço urbano - e um querido amigo diria: ‘ que bonito isso’ - como quem sente falta de ar. E voltar é como um balão de oxigênio quando o ar se torna rarefeito e as paredes do quarto do hotel começam a me comprimir. Por inúmeros motivos quis sair de BH por um tempo, descansar a imagem, já diria outra amiga. Foi tudo de última hora, 45 dias fora me pareciam 45 horas, falando assim, rapidamente. A proposta de trabalho veio a calhar, como um bote salva-vidas, pronto a me resgatar do meu naufrágio pessoal. Não hesitei em me segurar e ser levada, 2061...

Pra salvar a minha vida

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"Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria" (Clarice Lispector) Sempre escrevi. E sempre deixei claro que escrevo por necessidade, não por vocação ou talento. Escrevo pra estravassar meus 'ais', pra exorcizar meus demônios, pra entender minhas pirações, dar asas ao espírito livre, sossegar a alma inquieta. Escrevo por mim, pra mim. Quando resolvi pegar tudo o que eu escrevia e publicar não esperava leitores ávidos, muito menos compreensão. Aliás, não esperava nada. Queria apenas 'escrever meu livro', já que o ter um filho eu abro mão e pra plantar uma árvore ando 'sem tempo'. Escrever muitas vezes é meu bote salva-vidas. É meu porto seguro. Minha ponte, minha cama elástica no fim do poço, escrever muitas vezes é o remédio, parafraseando Mart'nália, que me tira do tédio. Escrever é meu sopro de boa nova, é minha oportunidade de recomeçar, todas as vezes que começo a primeira frase. ---------------------...

Eu sou assim

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"Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar."  (Caio Fernando Abreu) Não sei representar papéis. Acho que nasci pra viver sozinha. Não gosto de cozinhar. Gosto de crianças quando elas estão dormindo. Não tenho vocação pra Madre Tereza. Sou chata, tenho manias estranhas e gosto mais de cachorro do que de gente. Costumo ser radical com gosto musical. Tenho preguiça de gente prolixa. Na fila de distribuição de paciência eu não tive paciência pra esperar pela minha vez. Odeio que mexam nas minhas coisas, tenho horror à desorganização. Não ligaria de trabalhar num ‘aquário’ com um computador, uma mesa e uma cadeira, desde que pudesse ouvir minhas músicas sem fone de ouvido. Não nutro a esperança de casar, para isso precisaria de muito amor do outro pra aceitar aquilo que não consigo mudar em mim ...

Curvas

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“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” (Drummond) Outro dia no metrô lendo a antologia poética de Drummond me deparei com o Poema de Sete Faces, fiquei relendo o verso ‘ Vai, Carlos! Ser gauche na vida’ por quase toda a viagem. Relendo talvez porque o verso faça todo sentido pra mim, relendo talvez porque mais cedo ou mais tarde, a gente querendo ou não, somos gauche, esquerdos, tortos como diz a definição do verbete. Minha vida sempre foi meio gauche, sempre preferi o que não era modismo, nunca fui a popular no colégio, nunca tive a pretensão de ser a ‘Rainha do Baile’, me contentava em ser antagonista da história. Mas a bem da verdade, existe certa vantagem em estar do outro lado, meio deslocado de tudo, fora do foco, outside . É bom ver como a engrenagem funciona, é bom reparar de outro ponto de vista, é interessante analisar sob outra ótica, mesmo um pouco distorcida. Ver tudo de outra forma, reparar as sete, oito, nove, i...