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Diga trinta e seis

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(Leia ao som de Bird set free, da Sia) Antigamente eu amava comemorar meu aniversário. Hoje, 36 primaveras depois, escolho a tranquilidade em receber o abraço mesmo que virtual das pessoas queridas e só. O frisson da comemoração ficou perdido entre a correria do dia a dia, um pouco de desânimo e, porque não dizer, no fato de que aquela energia dos vinte e poucos anos deram lugar à resiliência dos quase 40. Mas antigamente eu também amava sorvete de abacaxi, verão e voltar pra casa com o dia raiando depois de ir de um samba pro outro no final da semana. Hoje eu amo sorvete de pistache, inverno e ficar em casa assistindo Netflix. O tempo passa, o tempo voa, a poupança Bamerindus nem existe mais, e a gente muda, a idade é só uma forma de contabilizar essas mudanças.   2019 não começou tranquilo, eu que sou de esquerda sabia que tempos difíceis se aproximavam, é uma linha tênue que separa o fácil do correto, eu cortei relações com gente que esteve na minha vida desde se...

12.05.2016

Querida Democracia, Me desculpe os versos simples, queria dizer adeus. Não sei quando você voltará, se é que volta. Queria também pedir sinceras e sentidas desculpas, por tratarmos-te de maneira tão vil. Somos um país relativamente jovem, ainda carregamos o instinto atávico servil e passivo, resquício do passado colonialista,  e vivemos na eterna dialética do senhor e escravo, onde os senhores, 500 anos depois, ainda são os mesmos de outrora. Talvez o fato de sermos jovens, faça de nós inconsequentes, nos calando os ouvidos e a boca, tragando-nos à cegueira de conveniência a ponto de renegarmos a tua existência, ignorando o fato de que ao fazê-lo, renegamos também a nossa própria como sociedade. Talvez essa mesma juventude esteja tão transviada que reconheça como herói o teu algoz, transformando em mito aqueles que a subjugaram e, num paradoxo nada sutil, tenha como juízes de um crime aqueles que o cometem, enquanto o que é julgado nada tem que o coloque na cond...

Teu, Fulano

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"A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho. Daí a companhia será questão de escolha, não de necessidade."  (Jô Soares) Meu ex-namorado tinha o costume de assinar emails, mensagens e afins enviados a mim com os dizeres: ' Teu, Fulano '. A verdade é que ele sempre precisou ser de alguém para se manter emocionalmente estável. Nos oito anos em que o conheço, juntando o período que fomos  just friends , o vi emendar um namoro no outro, mas não se emendava em aprender a viver sozinho. No fim das contas, percebi que ele simplesmente não conseguia ser só dele mesmo. Posso bater no peito e dizer: fico sozinha sem surtar. Sou da política do 'antes só, que mal acompanhada'. Nunca emendei um relacionamento no outro, sempre me dou o dever de fazer como o proprietário de uma casa que acabou de ser deixada por seu antigo inquilino: faço uma vistoria, vejo o que está estragado, o que precisa ser arrumado, vez por outra troco porta...

Luto

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Para L.A.B.N “Deixe as más histórias falecerem e escreva na lápide: aqui jaz a personificação da má escolha.”  “E me despeço com afeto, porque o ido já não está contido. Hoje eu enterro o que morreu para celebrar o que está vivo. Eu sou alguém que me tem.” (Marla de Queiroz) Então eu entrei na igreja e coloquei seu nome na intenção de missas de 7º dia. Eu vestia preto, cor que se pede ao luto. Não era proposital, embora nem fosse necessário desde aquela fatídica terça-feira, onde tudo andava negro pra mim. Não tive tempo para velório. Juntei o espólio - a herança que eu não queria herdar - doei tudo que era meu. O que era seu eu despachei pra sua casa num pacote pardo, sem remetente ou destinatário. Você morreu naquele dia. Era quarta feira, fim de inverno, fazia frio, mas não chovia. Pareceu-me um bom dia para alguém morrer.  Não foi morte propriamente dita, você morreu porque passou a não existir pra mim. E toda morte dói. Embarga a voz, dá um nó na g...

Pra trás

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"Fechei os olhos e pedi uma favor ao vento: leve tudo o que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui pra frente apenas o que couber no bolso e no coração." (Cora Coralina) Deixa pra trás é uma decisão difícil. É desfazer-se de um peso que, sabe-se lá porque, você já acostumou a carregar. No inicio é estranho, a gente anda meio descompassado, com aquela sensação de que largou uma luz acessa, uma porta aberta ou esqueceu-se de colocar comida pro cachorro. Deixar pra trás faz parte de algo grandioso que quase nunca conseguimos compreender na sua totalidade e, por vezes, nos rebelamos por achar que ao invés de deixar algo para trás, somos nós que ficamos pelo caminho. Dos outros, de alguns, da gente mesmo. Quase nunca compreendemos também que faz parte do processo individual e que não somos capazes de mudá-lo a mercê da nossa vontade. Deixar pra trás independe de nós, uma hora ou outra, contra ou a favor do que a gente quer ou pensa: papéis,...

Conta e risco

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"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem barômetros, etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós." (Manoel de Barros) Foi-se o tempo em que  eu achava que precisava de outra pessoa para ser feliz. Depois de muitos tombos e decepções aprendi que pra ser feliz basta eu mesma. Sem egoísmo algum nessa frase, a verdade é que, transferir para o outro a responsabilidade de nos fazer felizes é atestar a nossa própria incapacidade e, de quebra, garantir uma decepção sem precedentes. Conheço gente que é feliz tendo alguém, conheço outras que são completamente infelizes. Conheço também que não tem ninguém e é feliz e outros muitos que são infelizes solitários, mas cada um, acredito eu, sabe lá no íntimo que o fato de ter alguém ou não, não é o que determina a felicidade. O problema é que tem gente que faz questão de deixar essa certeza pra lá e, num ato de preguiça e d...

Compromisso

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"É que tem mais chão nos meus olhos que cansaço nas minhas pernas, mais esperança no meus passos que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração que medo na minha cabeça." (Cora Coralina) Esse ano decidi não fazer promessa de ano novo. A verdade é que a vida anda no melhor estilo ‘Band News’: em 20 minutos, tudo pode mudar. Então, resolvi assumir compromissos. Comprometo-me a fazer prevalecer o bem comum, mesmo que o mal de alguns insista em atrapalhar. Comprometo-me a ser mais solidária, mesmo se for apenas com o silêncio apaziguador diante de uma discussão inútil.  Comprometo-me  a sorrir mais, principalmente quando tudo parecer sem saída. Comprometo-me a ser mais tolerante, não só com o outro, mas sobretudo comigo mesma. Comprometo-me a fazer por dia ao menos uma pessoa sorrir, começando por aquelas que por qualquer motivo postem-se amargas diante da vida. Comprometo-me a ser mais auto-confiante, principalmente nas adversidades. Comprometo...