Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Remédio amargo





Durante a minha crise de lombalgia precisei tomar um remédio que, após ingerir o comprimido, deixava um gosto ruim e amargo na boca. No entanto o dito remédio fazia efeito quase que imediato além de ter extinguido a dor em um curto espaço de tempo. O gosto amargo incomodava, mas passava logo. Agradeci à Deus os avanços da medicina e pensando no remédio é que parei para analisar, quantos problemas a gente passa que nos torturam, atormentam, nos deixam doentes e quantas vezes temos que tomar uma decisão, nos posicionar, nos colocar à prova, dar a cara à tapa mesmo sabendo que este tapa vai doer como o diabo?!


Questionamentos à parte. É sobre essas decisões, sobre essas atitudes que a gente tem que tomar que fiquei aqui pensando com os meus botões. Na verdade, fiquei pensando em nosso medo de tomar uma decisão, de encarar a verdade dos fatos, de se posicionar diante de algo que não temos tanta certeza, da nossa insegurança em abrir mão do certo pelo duvidoso. Do eterno dilema da virgem (minha mãe que me perdoe a expressão chula): Será que vai doer?! Peloamordedeus, claro que vai! Quem falar que não tá mentindo, descaradamente! Que me desculpe quem teve uma noite maravilhosa e acha que passou bem da primeira mas, (entretanto, contudo, todavia,) algumas decisões sejam elas perder a virgindade ou sair do país, implicam em certo risco, em coisas que vão dar certo e outras que vão dar errado, implicam em muitas dúvidas e implicam em algumas dores, sejam elas físicas ou emocionais.

O problema em si não é nem a dor, mas a eminência dela. E não se arriscar a fim de evitar todas as conseqüências faz com que a gente fique parado, no mesmo lugar, sem se mover. Mesmo que esse movimento seja um passo para trás pois alguma coisa deu errada e vamos ter que concertar, de um jeito ou de outro. Nos acomodamos com a acomodação. Até aquelas pessoas mais empreendedoras e pioneiras em algum momento viveram o tal dilema da virgem e sabe porquê?! Porque ninguém (ninguém mesmo) está isento das conseqüências dos seus atos e ações.

E essas conseqüências nem sempre serão as esperadas, nem sempre serão boas, nem sempre nos afetarão drasticamente, nem sempre serão definitivas, nem sempre acontecerão de fato. É a gente que tem essa mania de ter medo do que tem do outro lado, do que tem depois do sim (ou do não), do que vem em seguida, de quando as cortinas se abrem ou se abaixam, porque não?! É a gente que protela a solução por medo do que se coloca em jogo ao tomá-la. É a gente que por inúmeros motivos (ou até nem tão incontáveis assim) esquecemos que algumas decisões, soluções e até mesmos as mudanças são como remédio amargo, pode até ser ruim no início, depois o gosto passa e as coisas enfim, começam a melhorar.


Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Eu tô falando de amizade




"É tão forte quanto o vento quando sopra, tronco forte que não quebra, não entorta... Podes crer, podes crer, eu tô falando de amizade."
(Podes Crer - Cidade Negra)



Segunda-feira, toca o telefone em casa. Papai atende – Cinara! É pra você! – Após o sonoro ‘Oi’, do outro lado da linha a voz familiar do meu interlocutor – Ci?! – Não nos falávamos desde o natal e para quem todos os dias trocava emails, telefonemas e encontros furtivos nos corredores da PUC, além da carona da 4ª feira, ficar sem se falar quase um mês é, no mínimo, estranho. Então, ouvir o alegre ‘Ci’ da Julia a muitos quilometros de distancia tem lá o seu peso!

Enfim, foi esse telefonema que desencadeou este post. Conheço a Julia 'há séculos', fomos vizinhas durante anos e, mesmo quando ela se mudou com a família para outro bairro, continuamos amigas. Ela é o meu oposto, somos fisicamente diferentes, fizemos faculdades diferentes, temos gostos diferentes, estilos diferentes e, é claro, pensamentos e opiniões diferentes para os mais diversos assuntos. E é justamente essa ‘diferença’ que talvez nos faça amigas. É essa capacidade de conseguir conviver uma com a outra, tendo tantas coisas ‘incomuns’ que faz com que eu ligue pra ela, no meio da madrugada, sem a mínina preocupação se são 3 da manhã, aos prantos, por achar que o ‘meu mundo caiu’ e eu estava sem a mínima condição de ‘aprender a levantar’. Ou ainda, que ela me ligue num domingo, regado a Mojito e letras, completamente chuvoso, lejos y lejos de distância, para uma consultoria online. Somos amigas pelo simples fato de que, não há diferenças no mundo capazes de destruir ou abalar uma amizade de verdade. Por mais piegas e clichê que a frase possa parecer.

Logo depois que desligamos, fiquei ainda sentada no chão da sala de estar, segurando o papel onde havia anotado o nº do celular enquanto ela estiver fora. Apesar da saudade, de saber que o reencontro previsto para fevereiro seria adiado por mais alguns meses, que a ‘festa dos 26’ não contaria com a presença ilustre do ‘moreco’, que eu ainda teria que atualizá-la constantemente sobre os acontecimentos por email e aguardar o fuso horário para tudo, fiquei pensando o quanto eu gosto dos meus amigos, o quanto eles são importantes para mim, o quanto eles fazem diferença na minha vida. Por mais que não sejam muitos, por mais que às vezes - e são muitas – eu não tenha tempo para vê-los, por mais que a distância impeça, as diferenças impeçam, as interpéries da vida e muitas outras coisas aconteçam, meus amigos serão sempre meus amigos. Durante muito tempo eu acreditei que amizade mesmo, de verdade, só pudesse acontecer ao longo de muitos e muitos anos de convivência, quando na verdade para ser amigo bastou ter algo chamado afinidade e que ela pode acontecer quando tudo parecer ‘oposto’, ao contrário ou, simplesmente, diferente. O tempo pode apurar uma amizade, mas não definir se ela vai acontecer e dar certo ou não, os amigos acontecem, simples assim. E essa talvez, seja uma das coisas mais importantes que vou aprender nessa vida.

Sinto falta dos meus amigos, gosto de estar com eles seja naquele fim de semana de sol, reunidos no ‘puxa’ debaixo da jabuticabeira ‘carregada’ ou num clássico domingo de chuva e conversas na cozinha. Gosto de ser amiga-irmã, amiga-filha, amiga-afilhada, amiga-madrinha, amiga-namorada, amiga-prima, amiga-dona (afinal, e os nossos amigos de 04 patas?!) amiga-ex-namorada (Porque não?!), amiga-sobrinha, amiga-cliente, amiga-profissional, amiga-partner, amiga-dos-amigos-dos-amigos, amiga-vizinha, amiga-aluna, amiga-amiga. Os amigos não tem uma ‘utilidade’ específica como o seu chefe (que ás vezes até se torna amigo), o cliente da agência, o frentista do posto de gasolina, o atendente da operadora de celular ou mesmo seus pais, um tutor, um tio ou qualquer outro parente. Um amigo , como diria Rubem Alves, é como aquela árvore, vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente. Mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante de um amigo sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.

Posso não ser a melhor amiga do mundo. Sei que tenho inúmeras faltas nesse aspecto. Posso não ser aquela amiga, que como diz a 'Juh', nunca vai te dizer ‘não faça’, e vai te apoiar, até quando a sua resposta for não, quando todo mundo (no estado normal) diria sim. Posso não ser a ‘melhor-amiga’, mas tenho certeza, meus amigos são os melhores, sempre!


----------------------------------------------------------------------------------

Trilha Sonora:


"Podes Crer" (Cidade Negra_Cidade Negra)