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Minha glória

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Desde o início da pandemia venho tentando limpar minha caixa de e-mails pessoal. Tarefa hercúlea, são ao menos uns 10 anos usando o gmail, coisas demais, histórias demais, recordações demais. Vira e mexe eu paro em uma cadeia de e-mails imensa, mensagens trocadas com meus melhores amigos, com alguns amores, vou ali relendo e revivendo, tem muita intensidade nas palavras, vou saboreando cada uma delas, como se elas fossem um fruto doce, ao mesmo tempo que me sinto maravilhada com essa capsula do tempo involuntária. A pandemia deixou a gente saudosista para o diabo, como se não bastasse isso, tem o fim do ano que, incontestavelmente, traz consigo um momento bad, daqueles em que a gente quer acender um cigarro, tomar um trago, chorar ouvindo Belchior, ‘t enho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro ’… Cara, eu só queria poder dizer que vai tudo melhorar, que dias melhores virão, mas, sei lá, não quero me comprometer com uma promessa des...

Home Office

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(Leia ao som de Capitão da Indústria, do Paralamas) Antigamente achava que home office seria uma boa, que não gostaria de trabalhar de casa, sem tem de enfrentar trânsito, um ou dois dias na semana? Na verdade, até acredito que seja, mas nas circunstâncias de distanciamento social, a única coisa que vi com o home office é que logo estaria cansada de todos os cômodos do meu apartamento e faria falta o habitual burburinho do escritório. Tenho sentido uma falta absurda de ir pro trabalho, de me arrumar correndo, da minha mesa, da minha cadeira, da voltinha pela Savassi na hora do almoço, das pessoas com quem eu convivo por lá. Não que eu seja a mais extrovertida da empresa, meu trabalho exige de mim atenção focada e, por vezes, eu estou de fone, ou abafador, já que trabalho numa sala com mais 7 pessoas, mas até a conversa descontraída no meio do expediente tem feito falta à minha rotina. Veja bem, eu adoro minha casa, ela foi pensada pra mim, tá certo que ...

Um céu cheio de música

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(Leia ao som de Sky full of song, da Florence and the machine) Eu nunca pensei que ia chegar aos 37 desse jeito: trancada em casa, sem poder sair, revoltada com a atual presidência (#ForaBolsonaro), preocupada com os próximos meses, sem receber os abraços e beijos dos meus. E, olha, eu já tinha pensando em chegar aos 37 casada com filhos, casada sem filhos, solteira sem filhos, solteira com filhos, viúva alegre, divorciada com 5 gatos, 12 cachorros e 1 jabuti, eu também pensei em chegar aos 37 morando em outro país, trabalhando numa multinacional, dirigindo pra tudo quando é lugar e com o cabelo menos grisalho do que ele está hoje. Mas, nem de longe me assombrava o pensamento de chegar  à uma nova idade em meio à uma pandemia, em confinamento, com medo,   deslocada da rotina que, embora critiquem alguns, é o que dá sentido na vida da gente. Eu nunca, nem nos meus piores pesadelos ou crises de ansiedade, consegui pensar que eu estaria assim, como estou   agor...

Diga trinta e seis

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(Leia ao som de Bird set free, da Sia) Antigamente eu amava comemorar meu aniversário. Hoje, 36 primaveras depois, escolho a tranquilidade em receber o abraço mesmo que virtual das pessoas queridas e só. O frisson da comemoração ficou perdido entre a correria do dia a dia, um pouco de desânimo e, porque não dizer, no fato de que aquela energia dos vinte e poucos anos deram lugar à resiliência dos quase 40. Mas antigamente eu também amava sorvete de abacaxi, verão e voltar pra casa com o dia raiando depois de ir de um samba pro outro no final da semana. Hoje eu amo sorvete de pistache, inverno e ficar em casa assistindo Netflix. O tempo passa, o tempo voa, a poupança Bamerindus nem existe mais, e a gente muda, a idade é só uma forma de contabilizar essas mudanças.   2019 não começou tranquilo, eu que sou de esquerda sabia que tempos difíceis se aproximavam, é uma linha tênue que separa o fácil do correto, eu cortei relações com gente que esteve na minha vida desde se...

12.05.2016

Querida Democracia, Me desculpe os versos simples, queria dizer adeus. Não sei quando você voltará, se é que volta. Queria também pedir sinceras e sentidas desculpas, por tratarmos-te de maneira tão vil. Somos um país relativamente jovem, ainda carregamos o instinto atávico servil e passivo, resquício do passado colonialista,  e vivemos na eterna dialética do senhor e escravo, onde os senhores, 500 anos depois, ainda são os mesmos de outrora. Talvez o fato de sermos jovens, faça de nós inconsequentes, nos calando os ouvidos e a boca, tragando-nos à cegueira de conveniência a ponto de renegarmos a tua existência, ignorando o fato de que ao fazê-lo, renegamos também a nossa própria como sociedade. Talvez essa mesma juventude esteja tão transviada que reconheça como herói o teu algoz, transformando em mito aqueles que a subjugaram e, num paradoxo nada sutil, tenha como juízes de um crime aqueles que o cometem, enquanto o que é julgado nada tem que o coloque na cond...

Teu, Fulano

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"A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho. Daí a companhia será questão de escolha, não de necessidade."  (Jô Soares) Meu ex-namorado tinha o costume de assinar emails, mensagens e afins enviados a mim com os dizeres: ' Teu, Fulano '. A verdade é que ele sempre precisou ser de alguém para se manter emocionalmente estável. Nos oito anos em que o conheço, juntando o período que fomos  just friends , o vi emendar um namoro no outro, mas não se emendava em aprender a viver sozinho. No fim das contas, percebi que ele simplesmente não conseguia ser só dele mesmo. Posso bater no peito e dizer: fico sozinha sem surtar. Sou da política do 'antes só, que mal acompanhada'. Nunca emendei um relacionamento no outro, sempre me dou o dever de fazer como o proprietário de uma casa que acabou de ser deixada por seu antigo inquilino: faço uma vistoria, vejo o que está estragado, o que precisa ser arrumado, vez por outra troco porta...

Luto

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Para L.A.B.N “Deixe as más histórias falecerem e escreva na lápide: aqui jaz a personificação da má escolha.”  “E me despeço com afeto, porque o ido já não está contido. Hoje eu enterro o que morreu para celebrar o que está vivo. Eu sou alguém que me tem.” (Marla de Queiroz) Então eu entrei na igreja e coloquei seu nome na intenção de missas de 7º dia. Eu vestia preto, cor que se pede ao luto. Não era proposital, embora nem fosse necessário desde aquela fatídica terça-feira, onde tudo andava negro pra mim. Não tive tempo para velório. Juntei o espólio - a herança que eu não queria herdar - doei tudo que era meu. O que era seu eu despachei pra sua casa num pacote pardo, sem remetente ou destinatário. Você morreu naquele dia. Era quarta feira, fim de inverno, fazia frio, mas não chovia. Pareceu-me um bom dia para alguém morrer.  Não foi morte propriamente dita, você morreu porque passou a não existir pra mim. E toda morte dói. Embarga a voz, dá um nó na g...